Meu anjo.
Gostaria tanto de conversar contigo. Não faria perguntas enfadonhas, nem muito menos ficaria
ansioso por respostas que resolvesse todos os meus problemas.
Seria do tipo papo de botequim, sem considerações muito afiadas, ingerir água com gás para expandir
os prováveis vapores que por telepatia saberia das minhas necessidades e eu das suas.
Transbordaria de curiosidades nas respostas que afligem a humanidade, mas deveria me comportar como um lorde como pede um relacionamento nesta extrema magnitude.
Vossa Excelência estaria sentada num pequeno divã, quando na verdade eu é que estava precisando de uma psicoterapia. Você talvez ficasse curiosíssimo desta minha conduta afligente e respositiva.
Todos estavam percebendo a sua humilde presença, mas nem todos dessem bola para alguém tão comum naquela mesa de bar, digo velho sofá esfarrapado.
A noite estava passando, música ao ar, ninfetas se esbaldando num vai e vem sem parar.
Quanto aos homens, ah...homens no seu comportar vampiresco na procura copular na primeira oportunidade que surgisse. Observávamos tudo com discrição e metáforas.
Chegando em certos momentos que explicações se faziam necessárias aos vossos olhos.
Mas meu querido anjo - eu é que ávido de perguntas queria lhe bombardear. Mantive-me.
O dia já quase em raios fazia meu coração brotar de curiosidade nas perguntas que queria lhe fazer.
Continuei mudo, recluso, observando a sua conduta naquele ambiente aonde as pessoas ingeriam líquidos dos mais diversos, petiscavam bolinhos com cheiro que para ti não tinha nenhuma finalidade.
Esvaziando tal lugar começou a sumir as Marias, os Pedros, Oliveiras e outras Camélias.
Logo percebí que estavámos vós e eu. Acredito que estava na hora das interrogações ou divagações que me comprometi em não levantar.
Primeiro não sabia qual era o seu nome.
Segundo não me perguntaste nada.
Terceiro nada consumimos.
Quarto o sol penetrava entre as frestas da janela.
Acho que estava na hora de ires embora.
Mas eu não podia ficar sem uma única pergunta, algo que se não me incomodava, o porquê de pedir sua presença, ajuda, apoio naquele recinto festivo para mim e indiferente para ti.
Estava ficando sem jeito, trêmulo, envergonhado de magicamente evaporar e possivelmente perder a única ou última oportunidade de chancelar e inquirir um anjo do Senhor e saciar minhas curiosidades - mas eu tinha me comprometido a não fazer isso. Assim o fiz.
Para meu espanto quando uma luz meteórica daquele lugar partiu, uma frase foi deixada em minha mente sem que nada perguntasse: irmão às coisas desse mundo são absolutamente passageiras, quer sejam boas ou más, os planos terrestres são temporais, gestos, ações e palavras fazem parte da evolução humana, independente dos julgamentos de quem quer que as faça - o que importa é que todos se encontrarão em outra dimensão e aí os julgamentos não serão da forma que os terrestres imaginam e sim por algo bem mais grandioso, sem palavras, sem sentenças, sem dores humanas, onde os arrependimentos e maldades não são de vossas alçadas mas do equilíbrio entre a natureza, um Deus misericordioso e a dose de amor que leves em seus corações.
Ele se foi e todos os dias procuro aquele divã e lá não mais está, ficou no meu inconsciente.
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