
Crédito desta bela foto: Marco Ballena
A vida poderia ser mais simples, interiorana, sem as distonias desta cidade grande.
Respirar o ar que vem lá daquelas bandas, rompendo matas e montanhas.
Esperar pelo chamamento da mulher e adoçar a boca com gosto de café.
Olhar o horizonte sem nem pestanejar. Lóbulos sem maldades, só com a experiência da idade.
Sentar no tronco de aroeira, não pensar besteira, esperar o leiteiro passar.
Ainda está frio; mas logo o sol vai dar o seu ar de graça, sem desgraças só modificar.
Pernas se cruzam, mente o horizonte quer buscar - não respostas, só o frescor das plantas por abanar.
Meu chão é de barro, minha porta e janelas nem trinco tem, telhas gotejas quando a chuva vem molhar.
Sou quase um ermitão, vivo na solidão, acompanhado dos meus pensamentos em explosão.
Assim sou feliz e no silêncio do barro me faço cada dia um novo ser.
Tenho muitos casos e causus para contar e, neles diluo as verdades e mentiras para o dia passar.
Aqui pode não existir às coisas da cidade grande; mas para quê este excesso de consumismo.
Largo meus passos e vou ao riacho na certeza que um peixe vou pescar.
Quando dores sinto, a variedade da mata me oferece raízes e folhas que podem me acalentar.
Tenho um pouco de tudo: bode no sal, farinha de mandioca, fubá, beiju, água no pote e doce quando o umbuzeiro se dispõe a dar.
Seu moço, acostumado com essa vida o stress na vai me apanhar.
Filhos já fiz, todos se foram na busca da capitá, alguns voltam outros ficam por lá.
Quem não me larga é minha velha Josefina, me acho até um Napoleão.
Quando a noite chega é hora de acender o lampião, acho que ele até passou por estas bandas - dizem
às más línguas.
Neste sertão muita coisa pode me empolgar - a simplicidade deste povo, o pau de rato(árvore) que suporta a seca que o gado vem matar, crianças com fome, adultos esquálidos, epidemias de difícil curar, raquitismo vagueia neste lugar, analfabetismo voraz dos que nem sabem assinar, mulheres parindo ao Deus dará, e, o volumoso São Francisco que muito poderia ajudar.
Mas prefiro ficar por cá, mesmo sabendo que o "crack" já tomou este lugar. Triste situação !
Agora vou me acamar, procurar os carinhos rústicos da Josefina que, nunca sabe negar.
Amanhã tudo recomeça, sei que só a velhice vai aumentar e serei mais um brasileiro que para os cafajestes e interesseiros o meu voto vão clamar.
Gosto do sertão com seu céu azul e indescritível que a cidade não pode me dar.
Boa noite !
O lendário:
Testículos na gaveta
Segundo Lima, uma dessas lendas revelava que um sujeito estava cometendo incesto e foi flagrado por Lampião. O cangaceiro separou os dois irmãos e foi conversar com o rapaz. Ele falou para o homem que era para colocar os testículos na gaveta e fechar com chave. Lampião, então, colocou um punhal sobre o criado-mudo e disse: "Volto em dez minutos, se você ainda estiver aqui eu te mato". “A crueldade de Lampião estaria em fazer a tortura e obrigar o sujeito a cortar sua masculinidade para continuar vivo”, disse o historiador.

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