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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O boto.






Na outra margem tem uma jangada.
Mas não sei nadar.
Solte suas cordas e vem me salvar.
Traga-me troncos que possas agarrar.
Debruçar meu corpo cansado neste mínimo espaço.
Recupere minhas forças.
Jogue seu manto esfarrapado e acalme minha ansiedade.
Melhor se seu corpo rasgasse meu ser quase natimorto.
Hoje já quase perdido na sua procura.
Venha e me cubra de soluços de amor.
Deixe que suas lágrimas possam me afogar.
Talvez este seja meu último pedido perdido.
Logo podes navegar. Sozinha.
Sei que não vou mais lhe alcançar.
Tanto tempo passou e não me reconheces mais.
Barbudo em quase mendicância pedi socorro.
Queria só sentir seu cheiro.
De terra e de ar.
Rio do saciar, desejos tão tímidos em silêncio devia ficar.
Corpo cansado.
Suplicante.
Só quis me aproximar.
Sabia que era você.
Não podia me revelar.
Seria doloroso e esta não era a intenção.
Exausto como estava nem minha voz podias ouvir.
Deixaste-me na outra margem e nem meu corpo soubeste margear.
Fui dilacerado por ventos e mar.
Siga em frente. Vá!
Navegue e encontre um boto dourado a se apaixonar.
Ficarei de longe a observar.
Como não sei nadar - não poderei acompanhar.
Mas a intenção não é compartilhar esse sugestivo encontro da rainha do mar.
Possivelmente eu role e quando quase afogado voltes a me salvar.
Tentarei me transformar num boto brilhante e possa lhe enganar.
Farei mil piruetas no intuito de recativar a alma que em troncos pode me salvar.
Tudo seria esquecido, já não somos mais humanos.
Ficamos fortes por nada falar.
Feridas do passado se perderam com a beleza do mar.
Você dourada - eu querendo lhe agradar.
Bela mutação que só o boto pode proporcionar.
De dia a menina da jangada, anoitecendo vinha lhe roubar.
Lendas e mitos do boto cor-de-rosa em príncipe se transformar.
Talvez como fábulas de esopo pudesse ludibriar.
Manhã vem chegando e devo me ausentar.
Ao anoitecer voltarei e não mais precise chorar.

Nas manhãs ficarei na outra margem na espera do seu passar.
Pedirei sempre clemência para seu cheiro em minha alma penetrar.
Já é uma nova noite, agora faço minha festa que é lhe banhar.




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